O Homem Livre, Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1934, pp. 1–2.

[Atualizado para o acordo ortográfico atual]

Felinto Muller, o sangue de Tobias Warchawsky clama por vingança!

Polícia de Bandidos e Assassinos!

A Polícia que o Capitão Felinto Muller mantém no Distrito Federal é uma Polícia de Bandidos e Assassinos, e denunciar sua ignomínia e os seus crimes à opinião pública representa extraordinário serviço aos mais altos interesses da sociedade brasileira e da humanidade.

Não me furtarei ao cumprimento desse dever. Desde a infância, desde que meu espírito se abriu, deslumbrado, para a contemplação e a adoração das verdades eternas e da própria radiante substância cósmica e divina, que votei a minha vida inteira e o meu esforço incessante e impertérrito à defesa, à ostentação, à exaltação e ao culto da Liberdade Humana. Formei a minha mentalidade ao influxo dos formidáveis e luminosos ensinamentos dos gigantescos campeões da Independência Americana e da Revolução Francesa. Meu destino irrevogável é o de ser um servidor impetuoso e apaixonado dos belos Ideais que se consubstanciam no tríptico resplandecente: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

No cenário da evolução política do meu país, já combati com a maior veemência os erros, os abusos, os exageros da ditadura pseudo-constitucional do Sr. Arthur Bernardes, do governo do Sr. Washington Luís e da ditadura do Sr. Getúlio Vargas. Fui a voz desassombrada que se ergueu apenas 60 dias depois de triunfante a Revolução de Outubro de 1930, para verberar-lhe energeticamente a deturpação e o vilipêndio dos ideais revolucionários, publicando n’“O Jornal” o candente artigo que trazia a minha assinatura, intitulado: “EIS, BRASILEIROS, POR QUE FUI CONTRA ESSA REVOLUÇÃO!”

Já estou habituado a me defrontar com déspotas, e não os temo. No cumprimento do meu dever nacional e humano, nada temo, senão os desígnios de Deus. A Liberdade é uma força eterna, um imperativo da combustão cósmica que se revela através da espiritualidade humana, e essa força irrefreável acaba sempre por quebrar todos os grilhões e por esmigalhar todos os tiranos. A serviço da força eterna da Liberdade e da Fraternidade, de nada me arreceio, e diante de coisa alguma recuo, porque me dirijo em linha reta à consciência dos déspotas. E os déspotas, que possuem consciência, porque também são feitos de carne e osso, têm sempre medo, quando a gente os acusa com as armas da verdade, em nome dos direitos imprescritíveis da personalidade humana!

Minha missão de servidor da espiritualidade do ser humano e de porta-estandarte da Liberdade é arriscada, ingrata e difícil, porque os homens, principalmente os que detêm em suas mãos qualquer parcela de mando, têm uma tendência natural para se deixarem influenciar exclusivamente pelos apelos impulsivos dos seus instintos desenfreados. Fundei este jornal, tribuna flamejante que já vai repercutindo sobre a América, a fim de lutar denodadamente em prol da Liberdade dos Brasileiros e da Fraternidade entre todos os homens. Minha bandeira é a Liberdade, meu ideal é a Justiça, o sistema político que eu prego é a Democracia, meu objetivo é o império da Lei Cristã. Por isso os Reacionários me chamam de Comunista, porque defendo a dignidade humana dos Comunistas; e os adeptos da tirania vermelha de Moscou me acusam de vendido ao Capitalismo e à Reação, porque estigmatizo os crimes que os Bolchevistas e os seus sequazes têm praticado contra os imperecíveis ditames da Liberdade e da Fraternidade!

Para a frente, porém! “C’est en forgeant qu’on devient forgeron!” Atuamos no cenário da História Universal, e, aconteça o que acontecer, a posteridade me fará justiça. Vivo no plano da Humanidade, e é desta que espero o galardão único possível para os temperamentos do meu porte: a Glória.

Felinto Muller, és, perante a nacionalidade e a humanidade, o responsável único pela morte de Tobias Warchawsky. Sem teres mandato nem título nenhum que te autorize a tanto, estás, com o auxílio da tua Polícia de bandidos e assassinos, em plena Capital da República dos Estados Unidos do Brasil, lavrando e fazendo executar sentenças de morte contra inermes criaturas, como esse simbólico Tobias Warchawsky, cujo crime único foi submeter-se à lei universal que determina o flamejamento, em cada indivíduo, desse fenômeno cósmico que é o pensamento humano! Tobias Warchawsky foi por ti, ó Felinto Muller, condenado à morte porque praticava o horroroso crime de pensar com Liberdade, de pensar contra o que pensam tu e os teus comparsas de tirania “Revolucionária” e Polícia. Mas se tu, Felinto Muller, te arrogas o direito de pensares como te apraz, por que não o teria o grande Tobias Warchawsky? Grande, sim, como símbolo fulgente de uma idéia, de uma época, de uma mentalidade! Ah! Ele não tinha o direito de pensar, num país livre, porque era pobre? Porque era proletário? Porque era judeu? Os judeus, os proletários, os pobres então estão votados à Morte – à Morte sem processo, sem defesa, sem sentença judiciária, sem condenação em nome da Lei – desde que ousem ter a audácia de pensar?!… Foi para isso que, há mil e novecentos anos, Jesus Cristo se deixou crucificar no cimo do Calvário?! Foi para isso que, há dois mil anos, Caio Júlio César caiu apunhalado no Senado Romano?! Foi para que no Século XX chegássemos a tão brilhantes resultados que, há dois mil e quatrocentos anos, Sócrates bebeu a cicuta à qual o arremessou Ânito?! (Um parêntesis: quem fala de Ânito e quem olvida Sócrates?).

A Polícia é, em quase todas as partes do mundo, sinônimo de banditismo organizado! Já Balzac, em uma das suas lancinantes páginas da Comédie Humaine, creio que em Le Père Goriot, demonstra, com as cores vivas do talento e com argumentos irrefutáveis, que a Polícia, em todos os tempos, se compõe da escória da sociedade – com a diferença única de que os bandidos da Polícia são pagos para defender a ordem social vigente (isto é, os interesses da classe dominante), enquanto os outros criminosos combatem, transgridem e infringem essa ordem. Quem tem sentimentos elevados, quem tem brio, quem tem uma formação moral de primeira ordem, não se presta ao papel de membro da camarilha policial, em qualquer degrau da sua hierarquia. Temos aqui mesmo, no Rio de Janeiro, o exemplo luminoso desse caráter formosíssimo que é Arthur Cumplido de Sant’Anna, o qual, depois de ter visto o que é a Polícia por dentro, ficou tão enojado que a abandonou imediatamente. Com exceções raríssimas – que só servem para confirmar a regra – fazer parte da Polícia é a pior das recomendações quanto à estrutura moral e mental de quem quer que seja.

A Polícia do Distrito Federal é um verdadeiro covil. Quiseram as artes do Demônio que fosse parar à direção desse covil um homem de temperamento fascista, autoritário, sanguinário, que alimentou grandes ideais de regeneração enquanto não conseguiu abiscoitar um rendoso emprego público. Casaram-se, nessa simbiose do Capitão Felinto Muller com a Polícia do Distrito Federal, a fome com a vontade de comer. A pretexto de repressão ao Comunismo e de combate às ideias extremistas, instaurou o Capitão Felinto Muller um regime de terror policial, em que a Polícia prende, maltrata, espanca, tortura, estrangula e mata indefesos cidadãos, cujo crime é unicamente o de nutrirem ideias que, na França, Inglaterra, Suécia, Noruega, Dinamarca, Espanha etc., são propugnadas por partidos legais dentro da legalidade.

A morte de Tobias Warchawsky foi clara, nitidamente praticada pela Polícia. O trucidamento deste rapaz não interessava de maneira alguma aos seus companheiros de credo social, nem aos seus amigos pessoais. Foi positivamente a Polícia que o assassinou – ou porque quisesse puni-lo pela sua audácia, ou porque pretendesse forçá-lo, depois de preso, a confessar coisas que ele não podia confessar. Qual seria o particular – ou quais os particulares, a não serem grandes personalidades, com as quais Tobias Warchawsky não tinha contato – que possuíam os elementos necessários para praticar um crime no centro da cidade e conduzir, em seguida, o cadáver de sua vítima para as matas da Tijuca?

O capitão Felinto Muller e seus sequazes supõem, porém, que a população do Rio de Janeiro se componha de cretinos, de idiotas ou de bobos, e vivem agora a tatear, a experimentar, a andar às apalpadelas, vendo se inventam um bode expiatório qualquer, para lhe atirarem às costas a responsabilidade da eliminação de Tobias Warchawsky. A Polícia está representando uma comédia, praticando uma mistificação, encenando uma pantomima – mas a opinião pública não se acumplicia nesse esforço de pretender tapar o sol com uma peneira. Ofereça o capitão Felinto Muller todos os contos de réis que quiser: a opinião pública sabe que os assassinos do desventurado desenhista estão dentro da própria Polícia.

Vivemos, no Rio de Janeiro, num ambiente da maior insegurança, do qual é agente e responsável – por um desses paradoxos em que é tão fértil a vida – a própria Polícia, o próprio Departamento Policial da Segurança Pessoal. Não foi somente Tobias Warchawsky quem desapareceu. É longa a lista de operários, estudantes, jornalistas, intelectuais, soldados desaparecidos, sem que ninguém saiba o que foi feito deles. Alguns tomaram destino ignorado, depois de terem sido presos pela Polícia; os outros saíram de suas casas e nunca mais deram sinal de vida. Amanhã, a mesma coisa pode acontecer a qualquer pessoa que incorra no desagrado do capitão Felinto Muller ou de qualquer outra autoridade policial.

É esse o regime “constitucional” em que estamos vivendo na Capital da República dos Estados Unidos do Brasil!

Felinto Muller, estou cumprindo e cumprirei sempre o meu dever de campeão da Liberdade Humana. Estou inteiramente às tuas ordens agora, para que me mandes prender como “extremista”, assassinar friamente em uma das tuas masmorras da Polícia Central e atirar meu cadáver às matas da Tijuca ou, com uma pedra ao pescoço, ao fundo da Baía de Guanabara. Meu destino é o de arriscar até mesmo a Vida pela causa da Liberdade – sempre o fiz no passado, sempre o farei no futuro – e o teu fadário é o de mandares assassinar covardemente, a serviço da tirania. Pensa bem, todavia, antes de me mandares prender e assassinar. Estamos no palco da Humanidade e no cenário da Civilização, e não há déspota que com ferro fira e que com ferro não venha a ser ferido. Se até mesmo um Nero, um César, um Napoleão, um Abdul-Hamid tombaram até à lama dos cemitérios, por que não haverias tu de tombar também?!…

Minha bandeira e minha paixão é a Democracia, como a têm a França, os Estados Unidos, a Inglaterra – como deve e necessita tê-la o Brasil. Mas podes ordenar aos teus esbirros que me prendam como “extremista”.

Sou primo de um Major do Exército, interventor no Pará; primo de um Tenente-Coronel do Exército, deputado federal eleito pelo Pará; irmão do diretor do Diário de Notícias, de Porto Alegre; irmão de um Tenente do Exército Nacional; sou escritor conhecido, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais – mas podes determinar aos teus beleguins que me prendam como elemento nocivo à ordem pública e pernicioso à marcha regular do regime constitucional. Remete, mais tarde, o meu cadáver para as matas da Tijuca! Mas pensa também na ordem cósmica, nos decretos inapeláveis da Providência e nos impulsos da dignidade do gênero humano! Acautela-te, Felinto Muller! O sangue de Tobias Warchawsky clama titanicamente por vingança! Felinto Muller, pensa na Humanidade!

HAMILTON BARATA

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